Me sinto cansada. Passar o dia ajeitando as coisas da casa não é uma tarefa fácil quando se está sozinho na jornada - embora essa tenha sido minha escolha, da qual não me arrependo. Estou constantemente de mudança, sem permanecer por muito tempo em um mesmo endereço, e não posso dizer que possuo uma razão válida para isso. Penso que não gosto que saibam onde me encontrar, além de que o silêncio de todas as ruas passa a se parecer cada dia mais com barulho quando se habitua ao espaço.
Eu gosto do silêncio, tanto que por vezes penso que sou um coral no corpo errado: meu melhor lugar seria existindo em um ambiente onde tudo é lento, silencioso, distante, e os sons de onde se pode respirar e sentir vento na pele nua são abafados pela água densa. Eu não me afogaria, pois é onde eu deveria estar; contudo, tive a fortuna de possuir um corpo bípede de um metro e setenta, com pelos crescendo descontroladamente na cabeça, unhas quebradiças, orelhas com formatos estranhos e a necessidade de controlar meu tempo de exposição ao Sol e à Água. Tenho a desprazerosa obrigação de manter meus pés no chão, meus olhos abertos e tato nu com o ar. Ar que conduz o som, que move os insetos e sustenta outros da mesma espécie que a minha - que são muitos, infelizmente.
Ser humano não é ruim em essência - a parte desgostosa é a de ser tão consciente. Eu sei muito bem o quão mal é esse planeta e o quanto isso pode me afetar por ser da espécie que mais o destrói. Mas quem dera isso não me fosse conhecido e eu fosse uma centopéia, tão primata e em tão plena ignorância! Amaria ter a virtude de não saber e de não ser sabida, tamanha minha insignificância. Eu devo ser a única pessoa que repara na existência desses seres capazes de se entocar e se esconder, como bem repara minha mãe (“como você consegue ver bichinhos tão pequenos? É por isso que você fica tanto tempo olhando pro chão”). Tenho plena compaixão por aqueles que são o que devia ser. Devem ser gentis comigo porque sabem que os vejo com tamanho fascínio.
É a minha décima nona casa desde que moro sozinha. Essa vizinhança é nova, jamais havia a visitado antes; contudo me é muito familiar. É estranho como todos os lugares por onde passo me parecem familiares demais. Eu não faço questão disso - levo o mínimo de móveis possível a cada mudança, evito guardar lembranças do passado, até mesmo as mais afetivas. Mas, de fato, levo sempre minhas roupas, produtos de higiene, acessórios, perfumes, livros e diários - ah, jamais me desfaço dos meus diários. Se um médium se aproximasse destes, se assustaria, pois há muitas marcas deixadas de todos os espíritos que já fui e que sou e ele não me reconheceria em muitos deles. O que dizer? Não somos nada menos que bolo alimentar de vegetais e doces e proteínas e ultraprocessados.
Acho que, de fato, sou o coral que tanto desejo ser. Deve ser algo tão forte e que vibra com tanta força que não chega perto de se tornar uma verdade material tangível. Corais são conglomerados de pequenos organismos que decidiram tornar-se um só, grande, cheio, intraduzível e indissociável de suas partes - bem como meu espírito. Um bebê é neutro, feito unicamente de curiosidade e inocência (duas coisas que são uma só no bolo alimentar do leite materno, pois não há porque existir curiosidade se não há inocência em relação ao objeto que a despertou), mas eu não sou um bebê. Um bebê não morou em mais de dezessete casas ao longo de sua vida; não é um conglomerado de diferentes móveis e posições de paredes e carteiros que batiam à porta para me entregar apenas o que eu já sabia sobre mim; não negligenciou tudo a fim de ser poeira para os conscientes alheios apenas para perceber que é algo impossível de se ser e mesmo assim prosseguir tentando. Se eu deixar de ser partes do meu todo, deixo de ser coral. Se deixar de ser associação, absorção, união, conglomerado, deixo de existir e passo a ser imperceptível - o que seria bom, se eu mesma não precisasse me perceber e preciso.
Mas, mesmo enquanto coral, posso me mover. Vou deixar os móveis, as fotos, as pegadas, as chaves, as maçanetas e os cômodos para trás, mas no fim continuo crescendo, aglomerando, juntando, recebendo do bom e do ruim, que são os nutrientes básicos da matéria. E, Graças a Deus, sou quase que inexistente vista de fora; poucos conseguem me alcançar nas profundezas do oceano além dos peixes despretensiosos e desinteressados. Mas existo, e por vezes sou notada, oh e sei que ainda hei de ser. Não sou imperceptível, muito menos invisível, embora pareça visão mágica clarividente por ser essência. Pois sou visível e tangível memória, rastro, amor. Em inerência, mesmo tentando ser o nada, sou o todo do passado, do presente e do futuro - e o todo sou eu.