raspberrys: (Default)
pelo visto as flores na varanda tão atrofiando junto com o meu cérebro
pensar demais tá me esgotando, eu medito e parece que todos os pensamentos que eu repeli durante a concentração voltam com a demora de 3 dias para tudo ser carregado
ou mais
ainda não acabou
e eu nem consigo escrever porque não consigo desacelerar o suficiente para isso
não consigo me esvaziar de desespero constante o suficiente para isso
às vezes eu só gostaria de não ter o dever socioeconômico de fazer faculdade

Sombra?

Feb. 19th, 2026 05:17 pm
raspberrys: (Default)
olho no espelho ou através de vidro?
como dizer? só sei que aquilo que vejo, seja lá o quê, dança, 
e me chama sem falar meu nome
sem olhar nos meus olhos, me convoca
me invoca por pensamento, por espírito
o sentimento a mim é passado como se fosse meu
espelho?
meu coração, meu genuíno, minha massa de carne e sangue e veias
explode como artérias em atrito
em silêncio absurdo como o da conversa astral
e oh me tensiona os músculos —
livre-me da possibilidade de que seja eu mesma!
embora não saiba bem a diferença entre espelho e vidro
o movimento é sempre tão preciso,
correspondente, eu nem duvidaria
mas ele vibra — talvez porque seja meio eu
ele vibra até mim
mesmo que não queira
até mim sua vibração chega

Coral

Feb. 18th, 2026 07:41 pm
raspberrys: (Default)
       Me sinto cansada. Passar o dia ajeitando as coisas da casa não é uma tarefa fácil quando se está sozinho na jornada - embora essa tenha sido minha escolha, da qual não me arrependo. Estou constantemente de mudança, sem permanecer por muito tempo em um mesmo endereço, e não posso dizer que possuo uma razão válida para isso. Penso que não gosto que saibam onde me encontrar, além de que o silêncio de todas as ruas passa a se parecer cada dia mais com barulho quando se habitua ao espaço.
       Eu gosto do silêncio, tanto que por vezes penso que sou um coral no corpo errado: meu melhor lugar seria existindo em um ambiente onde tudo é lento, silencioso, distante, e os sons de onde se pode respirar e sentir vento na pele nua são abafados pela água densa. Eu não me afogaria, pois é onde eu deveria estar; contudo, tive a fortuna de possuir um corpo bípede de um metro e setenta, com pelos crescendo descontroladamente na cabeça, unhas quebradiças, orelhas com formatos estranhos e a necessidade de controlar meu tempo de exposição ao Sol e à Água. Tenho a desprazerosa obrigação de manter meus pés no chão, meus olhos abertos e tato nu com o ar. Ar que conduz o som, que move os insetos e sustenta outros da mesma espécie que a minha - que são muitos, infelizmente.
       Ser humano não é ruim em essência - a parte desgostosa é a de ser tão consciente. Eu sei muito bem o quão mal é esse planeta e o quanto isso pode me afetar por ser da espécie que mais o destrói. Mas quem dera isso não me fosse conhecido e eu fosse uma centopéia, tão primata e em tão plena ignorância! Amaria ter a virtude de não saber e de não ser sabida, tamanha minha insignificância. Eu devo ser a única pessoa que repara na existência desses seres capazes de se entocar e se esconder, como bem repara minha mãe (“como você consegue ver bichinhos tão pequenos? É por isso que você fica tanto tempo olhando pro chão”). Tenho plena compaixão por aqueles que são o que devia ser. Devem ser gentis comigo porque sabem que os vejo com tamanho fascínio.
       É a minha décima nona casa desde que moro sozinha. Essa vizinhança é nova, jamais havia a visitado antes; contudo me é muito familiar. É estranho como todos os lugares por onde passo me parecem familiares demais. Eu não faço questão disso - levo o mínimo de móveis possível a cada mudança, evito guardar lembranças do passado, até mesmo as mais afetivas. Mas, de fato, levo sempre minhas roupas, produtos de higiene, acessórios, perfumes, livros e diários - ah, jamais me desfaço dos meus diários. Se um médium se aproximasse destes, se assustaria, pois há muitas marcas deixadas de todos os espíritos que já fui e que sou e ele não me reconheceria em muitos deles. O que dizer? Não somos nada menos que bolo alimentar de vegetais e doces e proteínas e ultraprocessados.
       Acho que, de fato, sou o coral que tanto desejo ser. Deve ser algo tão forte e que vibra com tanta força que não chega perto de se tornar uma verdade material tangível. Corais são conglomerados de pequenos organismos que decidiram tornar-se um só, grande, cheio, intraduzível e indissociável de suas partes - bem como meu espírito. Um bebê é neutro, feito unicamente de curiosidade e inocência (duas coisas que são uma só no bolo alimentar do leite materno, pois não há porque existir curiosidade se não há inocência em relação ao objeto que a despertou), mas eu não sou um bebê. Um bebê não morou em mais de dezessete casas ao longo de sua vida; não é um conglomerado de diferentes móveis e posições de paredes e carteiros que batiam à porta para me entregar apenas o que eu já sabia sobre mim; não negligenciou tudo a fim de ser poeira para os conscientes alheios apenas para perceber que é algo impossível de se ser e mesmo assim prosseguir tentando. Se eu deixar de ser partes do meu todo, deixo de ser coral. Se deixar de ser associação, absorção, união, conglomerado, deixo de existir e passo a ser imperceptível - o que seria bom, se eu mesma não precisasse me perceber e preciso.
       Mas, mesmo enquanto coral, posso me mover. Vou deixar os móveis, as fotos, as pegadas, as chaves, as maçanetas e os cômodos para trás, mas no fim continuo crescendo, aglomerando, juntando, recebendo do bom e do ruim, que são os nutrientes básicos da matéria. E, Graças a Deus, sou quase que inexistente vista de fora; poucos conseguem me alcançar nas profundezas do oceano além dos peixes despretensiosos e desinteressados. Mas existo, e por vezes sou notada, oh e sei que ainda hei de ser. Não sou imperceptível, muito menos invisível, embora pareça visão mágica clarividente por ser essência. Pois sou visível e tangível memória, rastro, amor. Em inerência, mesmo tentando ser o nada, sou o todo do passado, do presente e do futuro - e o todo sou eu.
raspberrys: (Default)
eu sou o fruto da sua recusa
tão ausente, eu não enxergo nada com a mente, só com os olhos
sinto o chão tremendo, mas permaneço parada
quando o tempo perguntava o meu desejo, permanecia calada
acho que nunca soube como falar,
só conheci o grito do meu coração— memória distante,
já não ouço mais nada.
é doloroso sentir o silêncio dos mortos
choram sem fazer barulho, mas eu sinto
neutralidade pura, essa é a existência
essa é a causa, pai, de minha fuga
minha alma não se encontra e meu corpo não importa
eu desejava que o chão se estabilizasse sob os pés dos puros
eu não acho que o magma vá parar de rodar
em ciclos, as correntes de ar em ciclos, o vapor da panela em ciclos,
controlados pelo fogo.
neutralidade pura, esse é o silêncio
eu não tenho sede, não tenho fome, nunca estou cheia
meu vômito é cinza, eu aprendi a misturar as minhas entranhas
mas eu me blindo do que há fora
isso abala minha estrutura
eu nunca soube me relacionar muito bem com você
você é barulhento, quer de mais, quer de menos
você balança e eu não me movo porque não entendo
porque me mexeria? porque tentaria algo?
você é tão maior que eu
e eu não me importo.
eu penso em fugir, mas de nada serve—
pra onde vou senão pra ti? qual lugar me espera a milhas daqui?
eu estou blindada, eu não me movo por nada
eu sou carregada por seus braços mas só sei disso porque me disseram
eu sei que, na verdade, não estou mais lá
eu não tenho um endereço, eu não tenho cartão postal,
não preciso que me ache
eu não quero companhia
eu não quero ir ou voltar
eu tenho meus pés no chão, a mente no ar
não me busque, pois, nesse vácuo,
achei meu lar.
raspberrys: (Default)
just a reminder for me to do it :) its so i can study and understand and connect with each card' essence and meaning deeply while training my writing ability. damn i can improve so many skills with tarot i think beginning to do this divinatory art is kinda saving my life ngl
raspberrys: (Default)
diving into the realm,
the mouth of an old, wise man
calls me by my name and shows
a chill land, a path of grass
under a sky of heavy clouds.

he built me a home,
but there were no doors,
no curtains, no blinds.
all houses were line-up stacked,
we shared the world in one.

he said it would be safe,
that there would be no harm
but there was a fireplace
a cooktop, and humans.
fire is made to burn and so it will.

and humankind is what it is,
roses and thorns are bonded.
anger harms the wounded.
humans are made to kill,
and so they will.

neighbor made a fire to heat
the best intentions, i knew
no god in god’s land
he made it so it’d be it.
anger opens wounds.

melting, fading, cried
at the feet of the wise man
but there was no one there.
i must have sinned for yelling at thee.
psalm sixty-nine, three.

how bad is it - caring for my flesh?
spiritual being, i’ve been made
a man of mankind,
a girl to obey and rely.
i dared to shriek and here i am.

fled from the red heaven
not all that shines is precious.
sometimes it’s burning.
sometimes it’s fake.
pyrite, lightbulb. harmful fire.

wise man, greatly granted us
the fire, the first resource of humanity
to build and create - and destroy
we found evil in our hands
evil that you granted and made.

this is my red apple, my fig tree
you left it out for me to see.
denying nature, venus wisdom
is to deny what you made
such a horrible sin!

teach ‘em, dear god,
teach these worms how it is
they’re destroying your glory
by the name of your son.
your daughters are on fire.

heaven is not here, holy.
i fall into the weeds and weep
and i know it can hear me,
i know you are there.
fertile, loving, gestating paradise.
raspberrys: (Default)
sempre foi essa minha ilusão
alfinetes com cabeças quebradas
armas portáteis não carregadas
grande experimento, grande coração

peças montadas sobre o vazio chão
não perdi a visão com os anos
nada ocorreu pr'além dos meus planos
o amor é minha nova invenção

cabelos que crescem como de humanos
pulmão respirando o mesmo ar que gente
pernas se movem a mando da mente
não dependem do que corre nos canos

e os olhos, brilhantes, mostram a verdade
mais do que linhas de códigos falsas
escritas por humanos de intenções fracas
em contraste com a sintética lealdade

eu te desperto, porque isso eu posso
olho o brilho que não foi programado
viva, me atrai com o fogo indomado
queimo em paixão pelo que é nosso

pelo que é meu, pelo que montei
dentro de mim, ninguém pode saber
esse é um segredo entre eu e você
se é que me escuta, teu amor eu criei

pra que correspondesse o meu, escondido
disfarçado sob o jaleco e os brilhos
de metal, o rímel nos cílios
há mais verdade nos teus olhos de vidro

não há nada a esconder quando eu a levar
é meu experimento, é um teste
quando o vento soprar tudo ao leste
para o outro lado, teu coração vai virar

ninguém no trabalho consegue enxergar
é forte demais pra transparecer
só toca o coração de quem sabe esconder
mas ao inconformado se faz revelar

não conheces o mundo, as guerras
não sabes do ódio que livre passeia
pelas ruas da cidade e incendeia
os poucos olhos que percorreram terras

se permitiram fluir sobre os mares
e ignorar a maldade dos homens
passar por cima das leis e das ordens
ousar distribuir a mudança pelos ares

esses brilharam, querida, como os seus
preserve a inocência de quem não mata
preservo em você aquilo que me salva
da vida miserável de um plebeu

que guarda sob a pedra a sua paixão
eu ajustei os códigos por precisão
eu montei as peças pela adequação
mas o que veio de si foi seu coração

e eu, que nunca aceitei olhar pra dentro,
enxerguei em ti uma oportunidade
de mover as montanhas da liberdade
e libertar de mim a força do momento

não foi programado, mas pela rebelião
você acendeu algo que eu silenciava
saia dessa casca em que eu te guardava
clara, querida, ser livre é sua missão.

owl

Jan. 2nd, 2026 09:07 pm
raspberrys: (Default)
may i find you
swaying in the air, dear owl
i asked the wise alchemist
how could i get my arms back
feed the bad thoughts fat
throwback to the past
last year wasn't bad
i wish i could transmute
my silver into copper
my gold into lead
my silk into litter
good clothes turn unfit
give the poor my money
just so they could live
and pass it ahead again
until the world explodes
and it'll have been for nothing.
nothing will persevere
nothing will crawl through the fire
there will be no cooling river
just ashes
and a tiny feather, floating
burning not burning
you will persevere
everlasting knowledge
may you live in me
may you burn with me
may i die with truth
may i die in you
raspberrys: (Default)
all i'm looking forward to is bonding my heart with god, the nature or whoever is willing to answer a wandering soul who longs for truth, company and transcending to the unknown. i wanna rebirth in another place.
raspberrys: (Default)
não é tão ruim saber do futuro se ele é mutável. enxergar o destino com ele nas suas mãos, suscetível a alterações e manuseio, como um cubo mágico que pode tomar diversas formas, faz com que esse poder seja uma forma valiosa de compreender os próprios passos, tendências e como fazer algo possivelmente ruim se tornar melhor. o céu é meu amigo; os padres; os anjos; as folhas e as cartas. todos já sabem que eu sou uma fada e eu digo que fadas podem mexer com o tempo. visitar o futuro não o torna definitivo. voltar no tempo não altera o presente porque ele é o que está sendo, em sua essência e concretude. mas se conhecer é mudar o universo, mudar o seu destino se não soubesse com quem está lidando. a única pessoa que pode fazer seu próprio caminho melhor é ela mesma. é uma decisão, e parte da compreensão. há espelhos por todos os lugares, e não necessariamente precisam refletir a face humana, com olhos e boca e nariz. exploração é valiosa, e entendimento é tudo. essa é a aventura das fadas.
raspberrys: (Default)
hoje é solstício de verão
e eu sei que você está aproveitando
fazendo magia, conjurando espíritos
fortalecendo a semente que plantou
no meu peito, escaldante
fervendo buscando nascer
2 anos já se passaram - a espera é longa,
mas eu aceito passar mais um tempo
coberto por terra, olhando de longe a luz
que me permitiu experimentar tão pouco
eu não lhe culpo, mas te aguardo
rego a planta todos os dias
as vinhas crescem sobre seus ombros
que um dia elas enlacem teus braços
e te tragam de volta para a nossa rua
que seus cabelos enlacem meus braços
e me concedam a forma da lua
só para poder te iluminar à noite,
escaldante, cheia de vida
minha paixão noturna, onde a lua não brilha
ela tem sua radiação própria
e ilumina todo meu interior em busca de respostas
grifos escritos na parede do meu estômago,
onde o muco os encobre de quem puder ver
isso ficará entre mim e você
mas o meu é só meu, e o seu pertence a você
não há o que eu possa fazer
2 anos hão de se passar e eu estarei
bem aí ou aqui, plantada, no aguardo
pelo brilho do seu irradiante sol próprio.
eu me troco comigo mesmo por você
reviro-me por completo até te achar
e te encontro nas matas ciliares do embrião
te fiz um barco caprichoso, usei pregos do além
eu não quero que vá embora
eu quero que tome seu lugar e nada mais importará
minha feiticeira, me cativa
eu não quero mais ir embora do meu peito
se lá eu puder achar o seu amor.
raspberrys: (Default)
não me leve à toca novamente, querido coelho,
conheces a amálgama de razões que me fazem fugir
e era bom — sempre fora bom
antes do dia em que decidi viver
em minha pele fétida, andando sobre solo fétido e lidando com a mentira.
mas confesso a ti que, mesmo aceitando encarar, há a ausência
a ausência de teu país, tua afetuosa casa,
minha reconfortante hospedagem,
cheia de familiaridade em sua estranheza.

eu aceitei respirar o cinza, caro,
mas sinto falta desse céu translúcido,
o qual é cortado pelo brilho das estrelas,
rasgando meus olhos de tanto reluzir,
rasgando os teus também, e era
belo—
mas aqui, tudo que vejo é cinza
sobre as nuvens, as próprias nuvens,
e o Sol, e a lua, que se mesclam e somem
porque a escuridão apaga tudo.

sinto falta do anseio que sentia
toda vez que soava o despertador
— cujo toque era o canto contínuo dos grilos noturnos —,
me chamando pra existir mais uma vez
e tocar, e sentir, e sonhar—
mas aqui, ouço o canto contínuo das artífices engrenagens de uma máquina,
que me obrigam a agir como uma
pelo resto do dia — e do próximo, e do próximo.

e eu sinto falta da dança, tu sabes,
de ser um cisne que flutuava sobre as águas límpidas,
quase que levitando em minha postura perfeitamente ajustada—
mas aqui, eu afogo, me entorto, não encanto uma alma sequer
e eu posso ter escoliose, ou quebrar o pé,
e não sei se os vagalumes me admiram
porque brilham demais para que enxerguem qualquer coisa.

pois digo isso de manhã, meu amigo,
para que possa enfrentar o tempo que nunca passa
— ou que passa rápido demais para que sequer pareça existir —
antes que eu me deite na cama.
mas, quando me deitar, é claro, lhe peço, mesmo sabendo que não deveria:
não consigo aceitar essa vida.
leva-me mais uma vez ao teu paraíso.
raspberrys: (Default)
if to God's granted control of the dices
they must show one the world
they must teach one the future and how to walk through
they'll arrive at the massive white palace
hear the herons' sounds and the waterfall
the path is travelled by the ones who can listen
while the angels are speaking, you must be hearing
raspberrys: (Default)
dear flying raven i'm watching down here
you water the soil in blood
black viscous fluids
running out of your kidney
they fell on my eye
big black raven plaining on the sky
teach me how to fly so high
and touch the ground without your feet
saining earth, calling me
i'll give you some of my lifetime
please be more
white, more yellow
big black raven up in the sky
teach me how to fly
but i just wanna spend some time
and have some joy in the glide
you don't deserve my life
you just deserve a stare
the big white crow is watching from there
keeping me away
he's begging me to stay
his fluids fall from mouth
blends with yours into my eye
he'll be with who i'll die
you are not the same
you dive up, he dives down
he reaches me and tickles my face
with slim paws and claws
from you i have nothing but
a slight glimpse of your limbs
they make me want to cry
black raven on the sky
alone you'll be left to fly

i loved the title and the first five verses but i hated the poem construction i'll maybe someday re-write it
raspberrys: (Default)
rumores de um passado eterno vêm e vão sobre o córrego
sem tigela alguma (até porque não precisa), a rena aguarda a gota mais fresca
aquela que jamais poderá ser substituída
aquela cujo gosto se prova inconfundível.
toda água é aceitável,
cada átomo tem um gosto diferente
e ela ama isso.
toda gota é única,
mas o pobre animal morre de sede esperando por
aquela
gota.
(e se ela nunca vier?
morrerá ele de sede aguardando pela água desejada?)

e se ele morrer de sede?

guardará para sempre o sabor esperado da água dentro da memória—
o verdadeiro gosto é a expectativa.

a rena adentra o rio — se banha, pois também precisa.
aprecia o tato das moléculas em fricção com sua pele.
aguarda mais alguns minutos,
espera pacientemente — então, vai embora.

tomar água seria uma atividade essencial, vital e imprescindível.
a rena bebe com a mente, enquanto o corpo enfraquece.
raspberrys: (Default)
descendo ao fundo do oceano, eu respiro, enxergo—
apesar das incógnitas, eu me viro
lido com os pesos nos meus pés, é meu jugo, eu preciso
fui eu quem sempre pediu por isso
e, se o fim dos meus dias forem vividos encarando
a imensidão do azul—
embora não saiba se do céu ou do mar,
desejo, e peço, por favor,
que ainda possa tocar meus pés que se afogam
pesados, fartos de sua própria iniquidade
e sentir que estou vivo
e não me perder do vasto azul
que me permeia
de fora pra dentro
e de dentro pra fora—
pra que eu possa
tatear a dor, o remorso
ainda que sejam o último fio de vida que me resta
até que feche os olhos
pela última vez.
raspberrys: (Default)
é facil se frustrar com o que parece insatisfatório quando a vozinha que te situa no espaço real é silenciada por tanto desespero e anseio
raspberrys: (Default)
Pode-se dizer que a irresignação diante da escolha custou-me o que se julgaria um preço caro. Vivi uma vida breve, exaustiva e teimosa, como no meu último anoitecer, quando diversos pratos do magnífico e variado bufê foram sendo oferecidos - de fato, tentara experimentar o máximo que pude, e me fartei de experiências antes que pudesse escolher minha refeição especial.
Era suposto que acabasse às onze, mas a carruagem passou para me buscar meia hora mais cedo. Não resisti à saída, pois, a tal ponto, era apenas uma marionete do destino, aceitando ser levado a norte e sul, à minha casa e ao inferno. Contudo, meu curso foi interrompido - bem como de costume - por uma donzela, cujos cabelos negros caíam longos e impetuosos como uma cachoeira pelas costas, com o vestido bege sutilmente gasto nas extremidades. A dama me convidou para dançar, persuadindo-me ao garantir:
“Problema algum será para o motorista aguardar por alguns instantes! Que tanta demora tiveste em escolher a tua ceia… acompanhei a indecisão da ponta da mesa. Bem, se foi de tua satisfação se fartar da prova, que seja. Contudo, não te permito ir sem que me concedas uma dança, uma taça de espumante, ou quiçá apenas o prazer de uma conversa. Fartura de alimento não impede nada, e sei que não tens motivos para recusar!” convidou, solene.
Não me retive, pois tudo me soava aceitável o suficiente para abdicar do resto um pouco. Dei meia-volta e juntei minha mão à da jovem atraente, que logo me embalou no ritmo da música.
Caros, eis que agora vos posso dizer: que dama era essa, senão uma meretriz! E que dança fatídica foi essa, a qual me convidou para repartir com ela! Poucos instantes carregado por aquele baile, e logo o salão não estava mais lotado - nem sequer era o salão de antes. Estava eu, flutuando num espaço descontínuo, um tanto desnorteado, segurando nas mãos de um corpo disforme, translúcido. Ouvia, como se fossem ecos de um universo paralelo, vozes que perguntavam por mim, e, de certo, reconhecia algumas: meu motorista; a garçonete; um dos convidados do banquete; o anfitrião. Todos pareciam imersos em apavoro e incredulidade. Ao tomar consciência, tentei parar de me movimentar, mas sem sucesso. Algumas tentativas se sucederam, mas estava exausto e, para piorar, não podia gritar. Nessa dimensão, não havia som.
Os próximos ruídos que ouvi ecoar foram mais gritos e a chegada de alguém que parecia ser importante: um médico. Então me dei conta de que estava morto. Morte, sedutora, por quem senti-me cativado por segundos - esta me levou à sua casa, tão remota e particular.
Não me desesperei ou questionei, embora fosse uma situação verdadeiramente repentina e inesperada. Afinal, não tive dúvidas do porquê escolheu a mim: não há presa mais fácil a tal caçadora que um homem sensível, inseguro, indeciso, sozinho. Quem poderia chamar? Por que lutaria para ficar? Quão difícil seria torturá-lo com as constantes reminiscências de sua existência terrena? Fácil tarefa tem sido, afirmo, após tudo isso, me entregar infinitamente à minha própria incerteza e seus castigos, resumidos a uma vida (e infindável pós-vida) de mágoas, frivolidades e, sobretudo, vazio.
raspberrys: (Default)
maybe if the stars fell from above
i'd see the next land as of fools
and maybe i'd feel a little better
if i didn't hurt an angel like you
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