sementes à mesa dos homens
Sep. 9th, 2026 11:00 pmentendo como te sentes, grão de mostarda
corta-me o pescoço, alta ceifeira
O cansaço de operar as máquinas me abateu mais cedo hoje.
Todos os dias, vou ao trabalho e fico o tempo todo ouvindo as coisas sendo serradas, pronta pra reparar tudo que quebra em uma sala cheia de informações da qual cuido praticamente sozinha, apenas com alguns assistentes que, quando querem, aparecem aqui. Me habituei porque é só isso que posso fazer, é só isso que tenho à disposição que vai me dar condições de sobreviver. E assim sempre levei. Só que, hoje, resolvi ir pra cafeteria, à qual já não vou muito, um pouco mais cedo que o horário de descanso. Ia desmaiar se não tomasse algo para me despertar, já que meu sono tem estado insustentável.
Passando por todos os setores de pessoas que não sei muito bem quem são, sigo o estranho e nada familiar caminho até o meu descanso. Reparo no chão pelo percurso, e é interessante como ele vai ficando mais abandonado, mais fraturado, mais carente de manutenção à medida em que sigo para os fundos. Então, pouco antes de chegar à cafeteria, pago o preço de andar olhando meus pés. Na aresta entre a parede e o chão, o piso de pedra porcamente instalado abre brecha para um pontinho verde, uma graminha que cresce na rachadura.
Aquilo me tirou de mim, ou me trouxe de volta, como vejo que faria mais sentido pensar agora. Em um espaço cheio de branco, cinza, azul, preto e mais cinza, uma pitada de verde. Me agachei para tocá-la e senti-la: será que nunca vi a grama antes? Tinha um cheiro fresco, por mais que não chovesse aqui, e o tato com aquele tecido me foi difícil de deixar. Gostaria de poder traduzir a sensação da grama, mas sei bem que todas as palavras que pudesse escrever aqui não seriam suficientes para inteirar o leitor na energia daquele momento, mas uma palavra talvez resuma isso suficientemente bem: vivo.
Todo o cinza que permeava o resto da fábrica sumiu diante daquele tom vibrante. Era como se aquelas folhas gritassem no meio do silêncio, e a rachadura de onde nasciam fazia parecer que buscavam realmente ser ouvidas - por mim, talvez; mas, ainda que não fosse, ela me achou. Pela grama, eu fui achada. Tocar nela me deu uma sensação diferente das máquinas de todo dia, como se eu estivesse absorvendo algo completamente novo. Tudo que eu mais amo veio à minha mente: lembrei de minha irmã, de minha casa, de meus livros há tanto tempo abandonados nas prateleiras, dos textos que escrevia antes de pegar no sono. Algo saudoso fluiu para o meu sangue, alguma coisa tão antiga que chamava meu nome há tempos, à qual eu tinha tampado os ouvidos de forma tão ingrata. O que é? É vida, certamente.
Sorri para a grama, agradecendo-a demoradamente por ter se feito floresta, mas meu estado de êxtase foi interrompido por um certo choque. Eu não via nesse exato momento, mas podia sentir e ouvir o barulho do maquinário. E, para piorar, isso era tudo que ouvia, porque eu sabia que cada alma ali se tornava um com o maquinário, também, ao disponibilizarem toda força vital a um alquimista artificial, que não sabe transmutar em ouro, que só sabe fabricar cobre. Então posso dizer que, juntando essas coisas, o som era silêncio, silêncio absoluto, silêncio desesperador. E, apesar de ouvir a reconfortante voz da planta, não estou na floresta. Não posso estar na floresta, nem com a minha irmã, nem dentro dos meus livros, porque estou aqui. Como pude não perceber que, de mim, que tenho um nome, uma idade e uma vida, estava sendo feita uma não-vida? Como não havia percebido antes que tudo que me embala é não-vida, não-vida, não-vida? Tive o impulso de tirar aquela luz que brotava diante dos meus olhos de seu lar, o que agora vejo que seria muito egoísta de minha parte, sentimento novo tão antigo de compaixão. Desejei me enterrar naquela fenda e morar lá para entender o que tanto há de mim nela, mas não tive nem a chance. Pude sentir a presença do meu chefe se aproximando, antes mesmo que ela se pronunciasse de forma audível.
- ‘Tá fazendo o quê fora do setor em horário de trabalho, Leila? Pode voltar. Esse lugar precisa continuar funcionando!
Quão devastador foi receber essa outra mensagem familiar, dessa vez nada distante, me trazendo de volta ao cinza, ao antrópico, ao artificial. Levantei-me e segui o alto homem de volta ao meu setor. “Essas gafes vão ser descontadas do seu salário, lembra disso”, foi o que ele disse enquanto me acompanhava. Um vazio tomou conta de mim ao ouvir essas palavras. A bela grama verde, mesmo com as melhores intenções, amaldiçoou o meu turno, lembrando-me de que há uma vida que essa morte sustenta - por mais que, lamento ter percebido, ela não esteja sendo vivida. Corta-se a grama, poda-se a alma, e assim continuará, até o piso ser remendado e fim.
I borrowed the blanket from the white room
Fish, flesh, trash floating on the pool
Painted red, white, purple, burnt, cut, scared
Empty walls, hair cascade to the beard
It’s wet. Can’t seem to know from where
Did the dead baby slip from under my bed?
Will the nanny cast it out of my head?
Dressed up, tight, never saw me bare
Dark highlights from beneath the dress
I think my eyes are blue, although it’s all so red
I lay in bed, unstitch the thread,
They tie it harder - tie it back.