raspberrys: (Default)
 opressão das terras estrangeiras
braços erguidos e eu afundo na multidão
em mim mesmo, não sinto nada
meu corpo é nil, nil
a carcaça da alma é nil.

entendo como te sentes, grão de mostarda
caído no meio dos girassóis
sem orientação, sufocado
cresces e te tornas erva daninha
aos olhos do amarelo
vil, vil.

corta-me o pescoço, alta ceifeira
me tiraste do submundo a força
meu apodrecimento é meu amor!
sua vida é amarga, 
mergulha-se em ouro
e eu, que só quero barro
forçado a ser entre os minérios.
 
portanto, não me compre. sequer sou pirita.
sou pedaço de terra
sou do moleque enlamaçado
que rouba um pequeno luxo e dá aos porcos.
 
não me insiras em teu farto banquete
pois não sou tempero de salada—
tampouco uso ternos de linho.
 
sou componente valioso da mesa
cesta de sementes para os ossos
e para quem com tudo se importa.
raspberrys: (Default)
 ergo-me do átrio, ensanguentada
enxergo o reflexo obsoleto na água
curiosa noção de existência perdida
como se tudo me fosse falho
como se nada me fosse digno.

os ecos do outro lado convidam-me
ao banquete do universo, a uma supernova
que não produz brilho, luz ou nada
que é tanto e que é pouco
e que, portanto, não ---.

e é só dela, do furo vermelho no espelho
lava-se em dor de não ter nome
sofre o fardo dos dez mil olhos
como se tudo fosse apenas algo,
como se o Sopro fosse apenas ar.

de repente, some a face translúcida
forma-se um milhão de estrelas
- Deus? também o pondera
mas Ele é algo, é homem,
é ser com rosto e com nome.

e é visto.
cria-se para fora, despeja água
pura para todas as almas qualificáveis.

mas do átrio, verte o sangue corrente
alma sem alma sem força sem vida
colore os rios e os céus e todas as estrelas.

rift

Aug. 21st, 2026 05:13 pm
raspberrys: (Default)
 abyss's voice calls 
with pretty charm, and i root
for the peaceful rose down there—
oh, what could i lose
 
by not loving a man like you
— what a waste of a lifetime!
picking weeds from the garden
so the leaves will find light
and they find you. up in the sky
your bright eyes shine high
and i glance. you watch me
and my flower bed smiles back to you
they grow for you
and all for you i could do
 
though i've managed to be
a locker with no padlock and no keys
with a rabbit hole inside no one's ever managed to see
but 
the skylight can watch me
 
so there you are, coming 'neath the cracks of my body, my heart
 
you see my insides and i let
you suck it up entirely,
i open up like i never could.
'cause no lover ever loved me
the way you, sunboy, do.

insaciável

Aug. 4th, 2026 10:05 pm
raspberrys: (Default)
 nada restou.
tudo está perfeitamente encaixado
executei o excrutínio completo de minhas sete mil vidas
arranquei os restos do meio dos meus dentes
troquei pela minha pele a que usava da serpente
e agora 
nada resta.
a esfinge está satisfeita
e agora, o que resta?
o que haveria dentro da pirâmide senão puro deleite?
medo. infinito medo
da tempestade, ou do vento, ou do sol que faz lá fora.
após pagar minha suada fiança, só me resta respirar o ar sujo
comer a mesma comida podre
cheia de medo. infindável medo
dos homens, do homem, de mim mesmo e da minha vívida crueldade.
as magnólias na varanda tornaram-se árvores
e o chão me convida a achar a raiz profunda
(quem sabe lutar por algo de novo vá me trazer paz?)
mas as flores seguem de pé,
os galhos penetram meus ouvidos até o cérebro
tudo é muito menor do que em meus sonhos, admito
não há terra para tantos frutos proibidos
mas eu criei, eu criei um novo furacão
para buscar uma nova esperança de final
e, no fim, quando eu a alcançar,
descobrir que nada restou —
apenas medo. insaciável medo.
raspberrys: (Default)
 for all the flowers of your butterfly kingdom
i'm a hummingbird, unsettled
yet flying higher than skydivers
in proper suits, i've got wings too
raspberrys: (Default)
 meu querido verso das memórias:
quantos anos não se passaram desde o fim dos tempos?
eu prometi construir um mundo novo
e, com presilhas no cabelo, lava seca em minhas mãos
moldei um castelo de ouro para nós
criei unicórnios de estimação
eu seria a estrela, você seria o canastrão
mas éramos de verdade, minha reminiscência,
meu mundo nos fazia eternos mesmo a Terra servida à mesa
você será o cavaleiro, eu serei a princesa
e por tão jovem, me permitiria
inventar os finais na minha cabeça
mas os caminhos se dividem e unem
agora eu sou o rio, e você é correnteza
raspberrys: (Default)
 eu quero ser cabeleireira.
eu passei tempos pensando no futuro profissional com a lente da graduação e pensava que nenhum caminho se encaixava e que nada ia dar certo e que eu ia ser ou uma frustrada ou uma falida. mas eu percebi que tem uma coisa que eu gosto muito de fazer, que é mexer com cabelo. há mais ou menos uma semana, eu fiz um trabalho legal no cabelo da minha amiga. pintei de azul embaixo e uma mecha de rosa na franja. ela gostou? sei lá. eu amei e me senti muito orgulhosa do meu trabalho.
pintar cabelo é uma arte, e foi muito prazeroso pra mim fazer esse trabalho. tenho certeza que fazer outros vai ser tão especial quanto, cada fio com uma característica diferente, 8 bilhões de mundos pra explorar usando criatividade infinita.
mas isso não é sobre ser cabeleireira. é sobre como as férias têm me feito bem na tarefa de entender a mim e ao meu caminho, me sentir bem na minha pele e desmitificar meus medos e até meus sonhos.
o primeiro semestre foi um inferno que eu criei pra mim mesma. me aproximei de uma amizade que acabou de um jeito ruim e terminei uma outra de "longa" data (pra uma garota de dezesseis anos), e isso acabou abalando tudo na minha cabeça. comecei a achar que ninguém gostava de mim, que eu era feia, chata, que não sabia conversar e que não pertencia a lugar nenhum. implorei por férias pra reorganizar meus pensamentos, e ao menos nisso não estava errada.
percebi muitas coisas nessas últimas semanas de ócio. no início, vi um colega de sala ao visitar uma antiga professora. ele me odeia? de jeito nenhum. ele é muito legal, por sinal, tanto que conversamos por mensagem às vezes e mantemos contato frequente na escola. ele é uma companhia fantástica, e eu poderia dizer que ele me salva do "inferno" da escola. no meio, eu fui à peça de uma outra colega de sala que é atriz. foi muito divertido, ela fez uma performance fantástica e me recebeu de braços abertos na casa dela depois. ela está por perto, e isso me lembra de que ela está comigo no colégio. ela também é legal.
então, recebo um convite de aniversário de outra colega, recebo mensagens de outra e, nisso, vou percebendo algo bem óbvio: o inferno não existe. só foi mais fácil inventar isso pra lidar com a frustração de perder duas amizades. o que isso diz sobre mim, afinal? seria eu tão insuportável por ter perdido a amizade de duas pessoas que também fizeram mal a mim? não faz sentido, faz? eu jamais diria isso a algum amigo que me pedisse conselhos sobre o mesmo cenário. porque não é verdade.
meu colégio tem pessoas de nichos bem diferentes do meu. eu achei um ninho pra me abrigar enquanto estiver de passagem, mas não é necessário me acomodar lá pra vida. e tudo bem. isso não diz nada sobre mim, diz mais sobre os ciclos que todos passam.
e quanto à minha aparência, eu sou feia porque ninguém diz o contrário? desse pensamento criei um medo específico, pois sou uma pessoa que se diverte muito sendo expressiva através de piercings, cores de cabelo e maquiagens, então tive medo de ter medo (típico dos ansiosos) de ser feia, pois, ao tentar me encaixar e ser validada por pessoas que nem importam pra mim, me tiraria a autenticidade. mas isso está diminuindo de outra forma.
não existe beleza, assim como não existe inferno. há alguma ave que diz à outra que é feia porque tem o bico mais avantajado? e algum leão que zomba do outro por possuir uma falha na juba, há? pois bem, não se criaram padrões de beleza na sociedade das aves ou dos leões. porque beleza não existe. então pra quê seguir algo que não existe? eu não acredito no inferno. então não devo inventar um novo. que seja como fui feita, e que se foda.
por fim, e o futuro? como vou garantir uma existência agradável, com sustento, prazer e amor? a lista de graduação da universidade não oferece curso de satisfação eterna, não oferece pós-graduação em propósito de vida.
mas, um dia, eu peguei um pincel, e vi um grande quadro branco de possibilidades — mil figos da figueira de plath que já estavam lá, porém eram assustadores por serem tantos. como poderei escolher apenas um? o quadro branco é mais oportuno.
assim, pude ver que não são opções a serem escolhidas, mas narrativas a serem formadas. meu próprio figo, tingido com cores que eu vou inventar com o passar dos anos, com sobreposição de formas e sombras, com arte elaborada e pensada pela alma.
e vou desenhando tudo isso, isso tudo, nos cabelos que eu ver por aí, criando a minha narrativa e deixando as marcas — tal qual uma cabeleireira faria.

colméia

Jun. 21st, 2026 11:27 pm
raspberrys: (Default)
a única ambição da abelha é fazer mel
fazer mel, até morrer
e fazer mais mel em outra vida. 
 
o que ela leva?
o mundo dela será sempre amarelo cor-de-mel
mas a alma dela, do que se lembrará?
do mel, claro
e dos outros operários que viviam no mel
a vida é no banho pegajoso
e o banho pegajoso é fruto da vida
enxames em sintonia
para tanto o mel é mais que mel
 
como abelhas sem colméia?
como colméia sem mel?
o mel é pretexto pra comunhão
alimento da alma é a alma do outro
doce gosto 
como mel
raspberrys: (Default)
 O futuro se constrói além de mim
E por não ver, só suponho
As vértices da percepção delimitam
O aqui, o agora, e isso é tudo.

O que se foi é detrás da janela opaca
Afirmo pelo embaçado como se fosse nítido.
Construo a narrativa imagética imaginária
Que se molda a cada olho, mente, ouvido
Assumindo vida própria e fugindo do meu abraço.

De tudo que foi, o que é meu? O que se perdeu?
O preto vira cinza, branco, gelo, nada
O pulso vira passo, pensamento, posse
O calor se esfria, a paixão é ódio e vice-versa
Nada se preserva

E nisso, também me vou, e me esqueço
Muda o meu rosto, cabelo, meus amores e as dores
Filtradas pela memória, tornam-se câncer ou cura.

Logo, meu nome já não é mais o mesmo
Nada de igual acontece pr'além da janela
As vértices do além assumem novas formas,
Novos polígonos, novos futuros se formam
E caminho sem norte, uma bússola quebrada
Apontando a todos os lugares, todos os objetivos.

Pergunto a mim mesma dos sonhos, mas eles são passado
Filhos da sala enevoada que não me são mais
A canção do futuro entoada por uma ostra
Que guarda uma pérola de milênios atrás
Não me pertence - e não a olho como se minha fosse
Mas reflete meu rosto em uma forma distante
Outro nome, outra casca, e não é meu.

Me apego aos sonhos que não tenho
Sonhos de um cardume que nada ao longe
E que já me foi, mas não me é.

O que aguarda o próximo passo?
A próxima sala se transforma a cada frase
Lhe alcanço a cada instante, em cada ponto cardeal
Há espaço a ser preenchido nos quatro cantos
Mas me atento a um deles, um figo da árvore
Cujo prazer desconheço -
É apenas para não morrer de fome.

Questiono em vão.
O meio-termo é tudo a todo instante
E é impossível estagnar no vácuo universal.
Assim, boio sem nadar, movo sem me mover
No fluxo eterno que é o agora que se foi
E o agora que será. Um só.
raspberrys: (Default)
 a spark of freedom lit in front of my head
the smooth dance of the flame took me out of bed
i was mesmerized
i felt like i was alive
 
it took me straight into another world 
gifted me stars, wishes, drove out the curve
unpetrified
powerful regardless of time
 
convinced me that I was capable of anything,
even of detonating the underground
i settled it all down
 
i was the queen of lights
controlling over seas and skies
doesn't matter anyone's next move
i predict what i'm going to lose
but i don't care, no shame
know i couldn't feel more pain
now i am the goddess of the flame
raspberrys: (Default)
 uma faísca de liberdade se acendeu
sua labareda dançava e me mesmerizou
fui até ela, a agarrei
e a outro mundo ela me levou
ela me trouxe até as estrelas, me concedeu desejos
me fez deusa de árvores e mares
me convenceu de que eu era capaz de tudo
até de detonar o subterrâneo
então eu removi a terra de seus pilares e fiz dela meu prazer
se um pássaro me cruzasse a mente, logo no espaço estava ele
eu, tão gigante, me tornei maior que a labareda
me trancafiei em meu governo, nos meus sonhos, vitórias disfarçadas
me iludi pelo delírio de um fôlego
e deixei que em tudo ela ateasse fogo
 
raspberrys: (Default)
 eu vejo a vida através da minha janela.
vejo o sol, sinto o vento, ouço as vozes.
amigos conversam, pessoas caminham,
pais se sentam perto dos seus filhos, enquanto estes brincam no parquinho. 
se a observo, então existe.
a vida existe por detrás da minha parede;
existe mesmo quando eu estou apenas a espectando debruçada sobre a varanda;
existe mesmo quando eu não a vivo. 
ela é assistida pela janela. 
ela é experienciada ao abrir a porta.
raspberrys: (Default)
 o que define uma obra de arte e seu valor?
 
a ideia de arte é um assunto muito relativo. ao meu ver, arte é tudo aquilo que dá forma às emoções, aplicando nisso também a técnica e a atratividade visual.
como poeta (e, consequentemente, artista), torno trabalho tudo aquilo que sinto e penso, coloco todas as minhas reflexões no papel. mas nem por isso deixo de prestar atenção nos elementos poéticos do meu texto, como sonoridade. é dessa forma que enxergo o fazer arte. porém, há quem considere arte folhas de papel amassadas ou quadros simples de bolinhas, e até mesmo gaste milhões de dólares por estes. 
no fim das contas, a triste verdade é que o que determina o valor de uma obra de arte não é a sua qualidade, mas sim fatores como renome do artista e preço dos materiais usados, o que é uma injustiça, pois muitos artistas talentosos não recebem o prestígio que merecem, simplesmente por não terem reconhecimento igual ao de outro artista que, por outro lado, teve essa sorte.
 
me deixaria satisfeita ver todos aqueles que dão sua vida na produção artística recebendo sua devida estima, mas infelizmente, a fama é um bilhete premiado, muitas vezes sem um critério para ganhá-lo.
raspberrys: (Default)
 eu marco o traço que divide a vida e a morte.
que divide o momento no tempo-espaço
entre um pedaço de matéria orgânica em seu período funcional
e a decomposição vegetativa dela.
acontece centenas de vezes por minuto. 
em segundos, essa linha se atenua
e, logo, desaparece.
não há dúvida do porquê. 
afinal, ainda que o corpo continue em movimento,
que a mente continue operando
e o sangue continue sendo bombeado,
a vida também pode ser simplesmente
os momentos que são experienciados,
a alegria,
a vida neles.
isso se perde.
acontece milhares de vezes por minuto. 
então, o que é, de fato, a vida ou a morte?
a vida é o batimento do coração,
mas também é senti-lo acelerar ao ver alguém.
a morte é a parada do pulmão,
mas também é se asfixiar em palavras guardadas.
uma vez que se vive, se vive pra sempre, sempre se há um legado.
mas uma vez que se lamenta,
que se perde,
que se morre,
se morre pra sempre.
acontece em todo lugar, simultaneamente,
milhões de vezes por minuto.
eu apago o traço que divide a vida e a morte. 
 

Alma

May. 26th, 2026 09:08 pm
raspberrys: (Default)
 

O cansaço de operar as máquinas me abateu mais cedo hoje. 

Todos os dias, vou ao trabalho e fico o tempo todo ouvindo as coisas sendo serradas, pronta pra reparar tudo que quebra em uma sala cheia de informações da qual cuido praticamente sozinha, apenas com alguns assistentes que, quando querem, aparecem aqui. Me habituei porque é só isso que posso fazer, é só isso que tenho à disposição que vai me dar condições de sobreviver. E assim sempre levei. Só que, hoje, resolvi ir pra cafeteria, à qual já não vou muito, um pouco mais cedo que o horário de descanso. Ia desmaiar se não tomasse algo para me despertar, já que meu sono tem estado insustentável.

Passando por todos os setores de pessoas que não sei muito bem quem são, sigo o estranho e nada familiar caminho até o meu descanso. Reparo no chão pelo percurso, e é interessante como ele vai ficando mais abandonado, mais fraturado, mais carente de manutenção à medida em que sigo para os fundos. Então, pouco antes de chegar à cafeteria, pago o preço de andar olhando meus pés. Na aresta entre a parede e o chão, o piso de pedra porcamente instalado abre brecha para um pontinho verde, uma graminha que cresce na rachadura.

Aquilo me tirou de mim, ou me trouxe de volta, como vejo que faria mais sentido pensar agora. Em um espaço cheio de branco, cinza, azul, preto e mais cinza, uma pitada de verde. Me agachei para tocá-la e senti-la: será que nunca vi a grama antes? Tinha um cheiro fresco, por mais que não chovesse aqui, e o tato com aquele tecido me foi difícil de deixar. Gostaria de poder traduzir a sensação da grama, mas sei bem que todas as palavras que pudesse escrever aqui não seriam suficientes para inteirar o leitor na energia daquele momento, mas uma palavra talvez resuma isso suficientemente bem: vivo.

Todo o cinza que permeava o resto da fábrica sumiu diante daquele tom vibrante. Era como se aquelas folhas gritassem no meio do silêncio, e a rachadura de onde nasciam fazia parecer que buscavam realmente ser ouvidas - por mim, talvez; mas, ainda que não fosse, ela me achou. Pela grama, eu fui achada. Tocar nela me deu uma sensação diferente das máquinas de todo dia, como se eu estivesse absorvendo algo completamente novo. Tudo que eu mais amo veio à minha mente: lembrei de minha irmã, de minha casa, de meus livros há tanto tempo abandonados nas prateleiras, dos textos que escrevia antes de pegar no sono. Algo saudoso fluiu para o meu sangue, alguma coisa tão antiga que chamava meu nome há tempos, à qual eu tinha tampado os ouvidos de forma tão ingrata. O que é? É vida, certamente.

Sorri para a grama, agradecendo-a demoradamente por ter se feito floresta, mas meu estado de êxtase foi interrompido por um certo choque. Eu não via nesse exato momento, mas podia sentir e ouvir o barulho do maquinário. E, para piorar, isso era tudo que ouvia, porque eu sabia que cada alma ali se tornava um com o maquinário, também, ao disponibilizarem toda força vital a um alquimista artificial, que não sabe transmutar em ouro, que só sabe fabricar cobre. Então posso dizer que, juntando essas coisas, o som era silêncio, silêncio absoluto, silêncio desesperador. E, apesar de ouvir a reconfortante voz da planta, não estou na floresta. Não posso estar na floresta, nem com a minha irmã, nem dentro dos meus livros, porque estou aqui. Como pude não perceber que, de mim, que tenho um nome, uma idade e uma vida, estava sendo feita uma não-vida? Como não havia percebido antes que tudo que me embala é não-vida, não-vida, não-vida? Tive o impulso de tirar aquela luz que brotava diante dos meus olhos de seu lar, o que agora vejo que seria muito egoísta de minha parte, sentimento novo tão antigo de compaixão. Desejei me enterrar naquela fenda e morar lá para entender o que tanto há de mim nela, mas não tive nem a chance. Pude sentir a presença do meu chefe se aproximando, antes mesmo que ela se pronunciasse de forma audível. 
          - ‘Tá fazendo o quê fora do setor em horário de trabalho, Leila? Pode voltar. Esse lugar precisa continuar funcionando!

Quão devastador foi receber essa outra mensagem familiar, dessa vez nada distante, me trazendo de volta ao cinza, ao antrópico, ao artificial. Levantei-me e segui o alto homem de volta ao meu setor. “Essas gafes vão ser descontadas do seu salário, lembra disso”, foi o que ele disse enquanto me acompanhava. Um vazio tomou conta de mim ao ouvir essas palavras. A bela grama verde, mesmo com as melhores intenções, amaldiçoou o meu turno, lembrando-me de que há uma vida que essa morte sustenta - por mais que, lamento ter percebido, ela não esteja sendo vivida. Corta-se a grama, poda-se a alma, e assim continuará, até o piso ser remendado e fim.


eueoeu

May. 12th, 2026 08:55 pm
raspberrys: (Default)
preciso me pertencer de novo.

o tempo passa, eu tenho picos, quedas, um equilíbrio perfeitamente instável.
eu amo a vida, eu amo todos, e então odeio faces humanas por um tempo.
eu quero me abrir, me jogar, me entregar pra sentir que é minha posse
o outro, enquanto eu sou posse de todos, menos de mim.

alguns dizem que eu devo ser bipolar.
quanto mais eu penso sobre, mais parece real e mais parece que eu invento.
nunca sei o que pensar sobre nada disso,
porque, se tudo é tudo ao mesmo tempo, onde cabe a essência primordial do
eu? - 

eu sei que me sou, isso sim. me sou na minha libertinagem
e no meu conservadorismo; na minha energia interminável
e no meu sono insaciável; na minha identidade
e na busca infindável por ela. me sou, para todos.

bipolar? eu? não consigo acreditar que posso pensar nisso.
mas me disseram que sim, então talvez seja, mas por que eu
só cogito alguma verdade sobre mim se ela passou por um filtro
que se localiza na boca do inferno, no centro da terra, que vomita à crosta?

estar em casa é pacífico. o espelho parece mais confortante
do que no banheiro da escola, e a luz amarela da sala
é como um consolo, um abraço de algo que grita "eu" ou "você".
o espelho só reflete a mim mesma. não há adjacências, olhares próximos.

eu sei que me sou. me sou no silêncio da luz amarela
e no meio das paredes adornadas. 
mas isso tudo é dentro de casa, então não posso me pertencer.
a posse não poderia ser condicionada. e então vejo que sou do mundo.

na igreja, ouvi que ser do mundo era não ser de Deus.
na alma, ouvi que Deus sou Eu, e é fato. eu mando no mundo
mas eu sou do mundo, e o mundo me tem. se não fosse assim,
o espelho da rua refletiria unicamente meu rosto tão cheio de Eu.

mas ele reflete dez pares de olhos de todas as cores
de todos os lados, validando e descartando, aprovando e condenando
e eu sou o réu eterno, sob pena de morte, nas mãos de um
cruel juiz que me condena, guiado pela métrica externa do seu próprio
eu - e refém eu sou do eu tão externo, alheio de mim mesma.

mud hands

May. 4th, 2026 10:41 pm
raspberrys: (Default)
 how come you didn't even wash your hands?
i granted you a seat by my side, calculated.
i saved some space for a face i couldn't quite remember after some days apart
i opened a sacred lock for a voice i don't long for — an echo, far away.
and how come you didn't even wash your hands for it?
not that i think you're dirty, even knowing you kinda are,
but i cleaned, cleansed every part of this house
i chose clean bedsheets and fresh clothes days ago.
you came from the same usual space, with the same usual clothes,
with the same usual memories lived with the same usual hands.
don't even care to try to fake pretend. you don't and don't care enough for it.
so go ahead, i am not strong enough to stop you from doing. 
from touching with your hands, grabbing, rubbing everything, everywhere
every skin and every object you ever grabbed.
and using me to make it dirtier. 
oh, you little sloppy person with hands.
 
you know, i used to believe i wanted you to be clean — that i would want anyone to be like that.
i am special. i am rubies and diamonds for the stained mirror in my bedroom.
so special i wanted to give it a shot.
no soul is muddy in this emerald world.
i proved it wrong, i accepted your body covered in soil and mud,
a heart so layered in different tones of shadow and dark.
i could only think of the last gold i find when i digged deep,
it made me giggle and rewind my old love feelings,
so i held you harder and realized there was dirt in my hands.
i didn't wash my hands either before touching you.
you are dirt soap for someone longing so much for more and more soil.
i'll be your mud, one more layer, just like you wanted it,
and i'll make you a new piece of soil too. 
 
raspberrys: (Default)

I borrowed the blanket from the white room

Fish, flesh, trash floating on the pool

Painted red, white, purple, burnt, cut, scared

Empty walls, hair cascade to the beard

It’s wet. Can’t seem to know from where

Did the dead baby slip from under my bed?

Will the nanny cast it out of my head?

Dressed up, tight, never saw me bare

Dark highlights from beneath the dress

I think my eyes are blue, although it’s all so red

I lay in bed, unstitch the thread,

They tie it harder - tie it back.

 
raspberrys: (Default)
 heaven's prophet
tell me if someday
when the trumpets play
i'll be taken away
 
preacher lord
save this holy water
you'll need it more later
when you see me crazy
 
i'm not having such a holy life
they'd nail me in the cross if i walked by
will i have a chance to sin again?
would you like?
 
heaven's angel
tell me if you'd call
your friends to bless them all
everytime they fall
 
sip of divine
will you ever let
a girl like me go mad
if hidden by your back?
 
you're not such a holy mind
you'd nail me in the cross just to fake fine
if i ever let you down, will you take fly?
would you lie?
 
the heavens aren't waiting
they know i'm not for saving
pretending it's not like that is no use
i'll be your witch, your player
my mouth is not for praying
my sins are on the table
they're my offering for you
 
you say your occupation's
to save me from damnation
you're going down with me
you're going down with me
you're going down with me........... (heaven's prophet)
 
heaven's prophet
 
you're going down for me.
raspberrys: (Default)
 oh, que dádiva!
ao fim do arco-íris, vejo um pote
com meu sangue dentro — oh, que lástima!
morri há tanto tempo e nem sabia
achei que o céu precisaria se limpar
pra que houvesse corpo para checar.
a nuvem chega, a chuva cai,
o sol se põe. 
tudo se ilumina sobre o jarro de carne.
a carne fresca, a carne podre
de um feto morto há dez estações.
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